Uma Visão abolicionista do bem estarismo e da regulamentação das vaquejadas

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Uma das justificativas para a manutenção e incentivo das vaquejadas, e de tantos outros meios de exploração das outras consciências do planeta tem sido os “cuidados pelo bem-estar animal”, que se diz ser uma ciência, com métodos estudados há muitas décadas com extensa publicação científica.

Alardeia-se que os animais são bem tratados e que existem regras de criação, de espaço, de assistência médica, de alimentação e que são tomadas todas as medidas para minimizar eventuais acidentes (a queda em si não é um acidente?).

Dentro da visão abolicionista, a própria necessidade do “bem-estar animal “ já é contraditório em si, primeiramente porque supõe, ou reconhece que existe um mal estar animal que deve ser combatido, sendo portanto este o único valor do bem estarismo: reconhecer que existe o mau estar animal.

As fazendas onde se implantam as medidas de bem-estar animal só o fazem por dois motivos, a pressão da população consumidora sensibilizada com a causa que pressiona o mercado ou o aumento da produtividade. Por questões humanitárias certamente não é, porque o que conta é o lucro nas industrias de produção.

O marketing das produtoras de produtos de origem animal pretende, e consegue, atingir um mercado consumidor parcialmente informado e que aquieta a consciência semi adormecida ao pensar que está comendo um ser que foi muito feliz…e que quase se auto imolou em haraquiri para nos servir. Desculpa para a escolha baseada no paladar. Existem até pessoas que acreditam na carne orgânica.

Foi bem dito que regularizar e normatizar o uso dos animais de produção e entretenimento seria equivalente a normatizar o estupro: não bata, não maltrate, não faça sofrer desnecessariamente, mas o estupro final continua. Deixe a ave se mexer, coloque em um local onde possa abrir as asas e caminhar uns passos, deixe o animal ter um mínimo de interação com a própria espécie, não deixe passar frio ou fome, meça seus níveis de cortisol, não use esporas, não use chicote ou sedém, preste atenção à etologia…mas o final será sempre a morte (com jeito, humanitária, “sem dor”), a interrupção da vida de quem tem claras intenções de continuar vivendo.

O bem estarismo, na visão do abolicionismo da escravidão animal, torna-se um objetivo final em si, porque não pretende ir muito além. É dar um lenço para que o escravo enxugue seu suor, hora de descanso, lugar para dormir, alimentação adequada, mas o escravo continuará sendo escravo, e no caso dos animais o estupro/interrupção da vida continuará sendo o fim. Diz-se que a qualidade da carne será melhor se houver bem-estar. Antropocentrismo especista.

Normatizar a vaquejada e a exploração animal será perpetuar o uso e a condição do oprimido.

Os artifícios que temos desenvolvido para que exerçamos o total domínio sobre os outros seres sencientes do planeta tem sido a conceituação de que sempre somos superiores a eles em tudo, e isto nos autorizaria a dispor da vida deles:
nós temos filhos, eles têm crias;
nós temos amor, eles têm instintos;
nós engravidamos, eles emprenham;
nós damos a luz, eles parem;
nós fazemos amor, eles cruzam;
nós sentimos dor, eles têm uma reação biológica;
nós morremos e nos transformamos em corpo ou cadáver e eles em carcaça;
nós crescemos, eles têm taxa de conversão;
nós queremos vida plena, eles que se contentem com medidas bem estaristas;
nós morremos e vamos para o céu, eles…para o esgoto na forma de fezes.
Qualquer adjetivo “deles” usados para “nós” se tornaria altamente ofensivo. Crescemos como civilização assim, aprendemos desde pequenos e ensinamos nossos pequenos assim. Não acredito que devamos nos mortificar e renegar todo nosso passado, mas evoluir é preciso. Quando crianças somos feitos pelos outros, mas depois de adultos nos fazemos a nós mesmos e decidimos e mudamos e adotamos posições críticas que não dependem de como fomos criados. Assim poderia ser como pessoas e como civilização. Temos que ser melhores que nossos antecessores…para honrá-los e nos honrarmos.
Muitos de nós, não sai da fase oral de bebê e pula do peito da mãe para o peito da vaca, primeiro regurgita o leite da mãe e depois de adulto arrota o leite da vaca (com a diferença de que o da vaca foi roubado). Com relação à nossa civilização, parece que não saímos da fase oral e continuamos a decidir pela boca, infantilmente, e não pelo intelecto. Fazer mal aos outros parece bem pior como caráter do que fazer mal a si próprio, e criar mecanismos para justificar e regulamentar esse mal que fazemos aos outros parece bem questionável. Bem humano.
Se formos procurar pessoas perfeitas para a construção de nossa sociedade/ civilização, pereceremos. Somos todos falhos. Não critico Hitler que era vegetariano e dizia amar os animais, nem São Francisco de Assis que comia os animais que amava, nem o defensor dos animais que grita na tribuna defendendo uns e com mau hálito pela carne de outro agarrada nos dentes. Para o animal que sofre não faz a mínima diferença quem abriu a jaula, ele quer é parar de sofrer. Não adianta apontarmos os dedos uns contra os outros porque todos temos defeitos. Atacar vaqueiros e empresários por si só não vai abrir jaulas. Teoricamente vivemos numa sociedade onde um contrato social diz que a maioria resolve, e que todos agem de acordo com o que é proposto pela maioria. Temos que batalhar pelo que acreditamos ser o bem comum sendo coerentes com a proposta de paz, a despeito da vontade de invadir uma arena e sair quebrando tudo.
Por quê não resolvemos a coisa entre nós como espécie adulta e deixamos as outras espécies sem voz ativa de fora? Regulamentar não resolve, bem estarismo é bem pouco e só cabe num coração limitado em anseios. O abolicionismo é radical? Sim. Radicalmente contra matar, torturar, privar de liberdade, não reconhecer a senciência, separar mães e filhos, usar em testes e se divertir com o sofrimento deles.
A lenta evolução da coisa atordoa e frustra quem sofre com o sofrimento alheio, sem preconceito especista. Tudo muito lento. A própria abolição da escravidão no Brasil demorou quase meio século desde as primeiras manifestações. Curiosamente o Ceará foi o primeiro a libertar seus escravos em 1884, quatro anos antes da princesa Isabel dar aquela canetada. O Ceará podia bem puxar o nível pra cima de novo !!!
Regulamentar é institucionalizar os maus tratos.
Leonardo Maciel Andrade
Médico veterinário, vegano e abolicionista

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